Por que decidi defender o modelo iure sanguinis
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Por que decidi defender o modelo iure sanguinis
Introdução
Não defendo o modelo iure sanguinis por tradição, conveniência ou mercado.
Defendo porque ele representa uma das expressões mais puras do princípio republicano de continuidade.
Ele reconhece que a italianidade não é um território, mas uma herança moral transmitida entre gerações.
A cidadania iure sanguinis não é apenas uma questão jurídica. É uma escolha civilizatória. Ela afirma que o pertencimento nasce da história e da memória, não da utilidade política.
A dimensão constitucional do pertencimento
A Constituição de 1948 consagrou uma visão generosa da italianidade. Reconheceu que a nação não termina nas fronteiras, mas continua viva nos filhos e netos de quem partiu. O artigo 9, ao afirmar que a República promove a cultura italiana também fora do território nacional, é a base moral do ius sanguinis.
Cada reconhecimento de cidadania é, em essência, um ato de reparação histórica. É o Estado dizendo a quem foi forçado a emigrar — e a seus descendentes — que a Itália nunca os esqueceu.
Por isso, restringir esse direito é mais do que um erro jurídico. É uma negação simbólica da própria Constituição.
Entre o formalismo e o sentido da República
O reconhecimento de direitos originários
Vejo muitos reduzirem a discussão a um debate técnico: prazos, registros, vínculos. Mas a questão é mais profunda. O que está em jogo é o modelo de República que queremos manter.
O ius sanguinis é coerente com o constitucionalismo italiano porque parte da pessoa, não do Estado. Ele reconhece que a cidadania é um direito originário, que preexiste ao reconhecimento administrativo. O Estado não "dá" a cidadania, apenas a confirma.
Essa é a diferença entre um país de cidadãos e um país de súditos.
A ética da continuidade
Identidade e pertencimento
Defender o ius sanguinis é defender a continuidade histórica da comunidade italiana. É reconhecer que a identidade nacional é feita de pessoas, não de fronteiras. Cada certidão, cada processo, cada sentença é parte de uma narrativa coletiva que liga o passado à República de hoje.
A cidadania iure sanguinis é o antídoto contra a fragmentação e o esquecimento. Ela não cria privilégios, cria vínculos. E o vínculo é o que sustenta a República quando as leis mudam.
O risco do esquecimento institucional
Consequências políticas e simbólicas
A tentativa de enfraquecer o modelo iure sanguinis não é apenas uma questão jurídica, é um sintoma político. Representa o esquecimento da história migratória da Itália — e o afastamento da promessa republicana de reconhecer todos os seus filhos.
Negar a cidadania a quem descende de italianos é reescrever o passado, é fingir que a Itália nasceu apenas do território, e não também da dor da emigração. Mas a Constituição nasceu justamente do oposto: do reconhecimento da dignidade humana como fundamento da República.
Por que decidi agir
Não atuo nessa área por conveniência. Atuo por convicção. Porque acredito que o direito à cidadania iure sanguinis é uma forma concreta de preservar a coerência da Constituição Italiana. E porque sei que a advocacia tem um papel político — no sentido mais nobre do termo — de defesa dos valores republicanos.
Enquanto alguns esperam, eu ajo. Enquanto o Estado hesita, eu recorro à própria Constituição. Porque a cidadania não é uma política pública, é uma verdade jurídica.
Conclusão
Defender o ius sanguinis é defender o direito de pertencer. É garantir que a Itália continue sendo uma República de memória e não de esquecimento. É afirmar que o sangue italiano não é um privilégio, é uma herança de responsabilidade.
E, acima de tudo, é lembrar que o advogado, quando atua com consciência constitucional, não apenas representa pessoas — representa princípios.
Leia o próximo artigo da série "Você sabe exatamente o que está sendo discutido?" e entenda tudo que está por trás do julgamento da inconstitucionalidade da Lei 74/2025 na Corte Costituzionale italiana.



