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De quem lutou pela Itália em 1944 ao bisneto que luta por seu direito em 2026: a cidadania que atravessa gerações

Publicado em 04/05/2026 às 9:15, por: Helena Ometto

Conheça a história do bisavô de um homem que hoje busca, por via judicial, a cidadania italiana, o direito que o sangue sempre disse que era seu. Um caso real de cidadania italiana para bisneto de pracinha da FEB sob responsabilidade jurídica da Master Cidadania.

Existem duas fotografias que uma família guarda há décadas. 

Na primeira, um homem de jaleco branco, de pé diante de uma porta de madeira. O cenário só pode ser europeu: pedra antiga, luz difusa, chão irregular. É Antonio na Itália, enfermeiro de guerra na terra dos seus antepassados. 

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Antonio Pieri Junior na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Arquivo familiar.

Na segunda, o mesmo homem de farda. Boina, uniforme completo, distintivo no braço. O olhar direto de quem sabe o que está prestes a enfrentar. Ele olha para a câmera com a serenidade de quem já decidiu. 

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Antonio Pieri Junior em uniforme da FEB. Arquivo familiar.

Esse homem se chama Antonio Pieri Junior. Filho de italiano e pracinha da Força Expedicionária Brasileira, Antonio integrou o Regimento Sampaio e compôs músicas gravadas pela BBC no acampamento de Francolipi, como ‘Tedesco, levante o braço’ e ‘Minha Homenagem (Meu Regimento Sampaio)’, durante a Segunda Guerra Mundial..

É também bisavô de um cliente da Master Cidadania que hoje busca, por via judicial, o reconhecimento da cidadania italiana por descendência, o direito que o sangue sempre disse que era seu. 

O pracinha que foi à Itália lutar e voltou sem pedir nada

No acampamento de Francolipi, o soldado Pieri Junior compôs uma homenagem ao pelotão em forma de samba. A BBC gravou, no entanto, a história dele começa antes disso, quando ainda nem pensava na música ou no front de guerra, muito menos que iria enfrentar o inverno nos Apeninos.

Antonio Pieri Junior era filho de italiano. Um desses milhares de imigrantes que atravessaram o Atlântico entre o final do século XIX e o início do XX. Trocaram a Itália pelo Brasil e fincaram raízes num país que prometia terra e futuro. O pai veio e formou família, por isso Antonio nasceu brasileiro, mas com sangue italiano nas veias e o nome que não deixa duvidar de onde aquela família veio.

De volta à terra do pai: a FEB na Campanha da Itália

Quando o Brasil convocou a Força Expedicionária Brasileira para a Segunda Guerra Mundial, Antonio foi como enfermeiro de guerra, integrante do Corpo de Saúde da FEB, treinado no Hospital de Pronto Socorro do Rio de Janeiro para atender feridos em campo de batalha. Era a função que ficava entre os tiros e os sobreviventes: segurar a mão de quem havia levado bala.

Mais precisamente, ele foi como padioleiro. Era quem entrava na linha de frente para carregar os feridos em maca enquanto os tiros ainda não haviam parado, de mãos ocupadas com o companheiro caído, não com um fuzil.

A Canção dos Expedicionários, hino não oficial da FEB, tinha uma estrofe que os pracinhas conheciam bem: “Anda bonito e com roupa recortada, é lá com os heróis da retaguarda.”, afinal, era a ironia reservada para quem ficava longe do front. Porém, Antonio Pieri Junior não era desses. Ele estava na linha de frente, com o capacete de cruz vermelha, a tesoura cirúrgica no bolso e o patch do Brasil no braço. Esses objetos ainda existem e a família guardou tudo. 

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Objetos originais de Antonio Pieri Junior: capacete de enfermeiro de campanha com cruz vermelha, tesoura cirúrgica e patch da FEB. Arquivo familiar.

O Regimento Sampaio e o preço de Monte Castello

A FEB, com cerca de 25 mil pracinhas, lutou na Campanha da Itália entre 1944 e 1945. Ele estava lá, de volta à terra dos seus antepassados, mas com uniforme brasileiro e missão de combate.

O glorioso Regimento Sampaio foi o que sofreu mais baixas durante a guerra. No primeiro assalto a Monte Castelo, perdeu 33% do seu efetivo e continuou na luta. Dos 457 mortos da FEB, 188 pertenciam ao Regimento Sampaio, além de 98 mutilados.

Mas, mesmo enfrentando este contexto Antonio voltou, e voltou sem exigir nada.

O que Monte Castello tem a ver com a cidadania italiana por descendência

A cerca de 60 km de Bolonha, na Itália, o Monte Castello precisava ser tomado pelos pracinhas brasileiros para que os Aliados pudessem avançar para o norte da Itália. Ao todo, foram quatro tentativas frustradas entre novembro e dezembro de 1944.

O Regimento Sampaio avançou à frente, mas os alemães resistiram ferozmente. A FEB identificou mais de 20 ninhos de metralhadoras na zona de ataque enquanto o frio chegava a -18°C nos Apeninos. Os pracinhas não tinham treinamento para montanha e muitos deles não tinham nem roupa adequada para o inverno europeu.

Todavia, foram mesmo assim.

Além disso, os pracinhas convidavam civis para comer, deixavam crianças circular nos acampamentos e tratavam as famílias italianas como próximas.

Antonio Pieri Junior estava ali, trabalhando em um hospital de campanha, em alguma cidade italiana, de jaleco branco, era o filho de italiano servindo a terra de seu pai com o uniforme de outro país.

A pergunta que o bisneto faz hoje, oitenta anos depois, é simples: o sangue, o nome e a história estavam lá, por que o direito não? 

O dia em que “O Globo” entrevistou Antonio Pieri antes de ele embarcar para a guerra

Existe um recorte de jornal que a família guardou por décadas, colado numa folha de caderno, protegido por plástico transparente.

É uma matéria do jornal O Globo, com o título: “Enfermeiros de Guerra — O intenso treinamento no HPS já lhes dá a sensação de estarem em pleno front.”

A reportagem encontrou cinco soldados do Regimento Sampaio no Hospital de Pronto Socorro do Rio de Janeiro durante o primeiro dia de treinamento prático dos futuros enfermeiros de guerra se preparando para o embarque à Itália. 

Entre eles, estava Antonio Pieri.

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Recorte de reportagem do jornal O Globo com entrevista de Antonio Pieri Junior. Arquivo familiar.

O repórter anotou o que ele disse:

“Aqui trabalhamos como se estivéssemos num hospital de sangue, muito próximo do front. Os cirurgiões atendem todas as necessidades do nosso preparo e isso dá a impressão de front se acentuar ainda mais. Não há um caso em que eles dispensem a nossa presença. Aprendemos um pouco de tudo, nessa especialização difícil que é a enfermagem cirúrgica. E tudo fazemos para assimilar os conhecimentos que, mais tarde, serão de vital importância.”

Portanto, Antonio Pieri sabia exatamente o que estava aprendendo e para quê. Não era ingenuidade, pelo contrário, preparo deliberado para o que viria. Tanto que, poucas semanas depois, embarcaria para a Itália.

As músicas que um pracinha compôs no front

Antonio Pieri Junior foi à Itália com palavras.

No acampamento do Regimento Sampaio, em Francolipi, enquanto o inverno nos Apeninos castigava os pracinhas e Monte Castello ainda resistia no horizonte, ele compôs e a BBC gravou. Tanto que as músicas ficaram registradas em 1945 e a família as recuperou décadas depois no YouTube, guardando-as como documento vivo de quem esse homem era.

A primeira é uma intimação cantada ao inimigo. Direta como só um soldado em campo pode ser:

“Tedesco, levante o braço / E peça paz / Que já é tarde demais / Resolve logo a tua situação / Que leva tiro de metralha, / De bazuca e de canhão / Se você ainda não sabe quem está lutando nesta frente / Abaixa as armas, Tedesco, e se apresente / Porque eu vou dar um tiro de inquietação”

“Tedesco, levante o braço” letra do soldado Pieri Junior, interpretada pelo Cabo José Pereira dos Santos, gravada em 1945.

Tedesco é alemão em italiano. Ou seja, o filho de italiano, vestindo uniforme brasileiro, gritava em português para o inimigo, usando a língua do pai. Há algo nesse detalhe que nenhum documento jurídico consegue capturar, mas que qualquer família de descendente italiano reconhece imediatamente.

Já a segunda música é uma homenagem ao Regimento e à batalha que marcaria a campanha brasileira na Itália para sempre:

“Meu Regimento Sampaio / Nós conquistamos pra você mais uma glória / Ficará na história do nosso querido Brasil / O Monte Castelo, belo nome tão ardil / Honraremos o teu nome / Com orgulho e satisfação / Pois nós todos pertencemos ao destemido leão / Tenha fé no teu soldado que é herói e ordeiro / Veio mostrar a fibra do Exército brasileiro”

“Minha Homenagem” composição do soldado Pieri Junior para o Regimento Sampaio.

Quem escreve música num acampamento de guerra não está apenas sobrevivendo, mas sim documentando. Está dizendo: estive aqui, isso aconteceu, e merece ser lembrado.

A Medalha de Campanha e o engajamento tardio no exército brasileiro

Antonio voltou da Itália em 1945. Em 2 de abril de 1946, o Ministro da Guerra assinou o Diploma da Medalha de Campanha em seu nome, concedida ao Soldado Antônio Pieri Júnior por ter participado de operações de guerra na Itália “sem nota desabonadora”. 

Ainda hoje, o documento oficial existe e a família mantém guardado como acervo.

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Diploma da Medalha de Campanha concedido ao Soldado Antônio Pieri Júnior pelo Ministério da Guerra, 2 de abril de 1946. Arquivo familiar.

Anos depois, quando descobriu que tinha câncer, Antonio fez um pedido ao Exército: queria ser engajado. Não por glória, mas por necessidade. O Estado aceitou e ele serviu como segundo sargento, com o salário que a patente permitia. Infelizmente recebeu pouco, mas nunca reclamou. Após sua morte, a viúva passou a receber como segundo tenente e esse foi o reconhecimento póstumo que o próprio Antonio nunca exigiu em vida.

Tudo isso é o retrato de um homem que foi quando chamaram, fez o que precisava ser feito, voltou, e só pediu ajuda quando não havia outra saída. 

A lei que complica a cidadania italiana por descendência e a luta que não para

A situação jurídica do caso é clara e honesta. Em 2025, a Lei Tajani reformou as regras da cidadania italiana por descendência e estabeleceu novos critérios que impactam casos com muitas gerações de distância. O bisneto de Antonio Pieri Junior se enquadra, numericamente, nessa restrição.

A banca jurídica da Master Cidadania, que está conduzindo esse processo, sabe disso e entra neste caso com os olhos abertos.

A tese jurídica: cidadania italiana como direito originário

Por isso, a via judicial de reconhecimento da cidadania italiana por descendência não oferece garantia, mas carrega um argumento sólido: a tese de que a cidadania italiana é um direito originário, que não nasce no momento do reconhecimento, mas já existia antes dele. É a defesa de que as restrições de geração impostas por lei ordinária não podem suprimir um direito que precede a própria lei.

A tese não é fácil, mas é legítima. De fato, há casos, em circunstâncias específicas, em que o Judiciário italiano a acolheu.

O contexto moral que uma família carrega para o tribunal

Para a família Pieri, há um elemento adicional que o processo carrega: a história. O avô foi à Itália lutar, não como turista, imigrante ou descendente em busca de raízes. Ele foi como soldado, a mando de um país que precisava de homens dispostos a defender um mundo que incluía, entre outras coisas, a própria Itália. 

Isso não tem peso de argumento jurídico formal, no entanto, é contexto moral que uma família tem o direito de carregar para o tribunal.

O que esse caso ensina sobre cidadania italiana por descendência

Em suma, a história de Antonio Pieri Junior é um caso extremo. Mas aparece, de formas diferentes, em centenas de processos que a Master Cidadania conduz. Afinal, a cidadania italiana não chegou ao Brasil sozinha.

Na verdade, ela veio com pessoas que trouxeram nome, língua, culinária, ofício e sangue, construíram cidades, abriram cantinas, plantaram uvas, fundaram igrejas e que, quando o Brasil pediu, pegaram um fuzil e foram lutar em uma guerra do outro lado do mundo.

Nesse sentido, o reconhecimento judicial da cidadania italiana por descendência é o ato de devolver ao presente o que o passado nunca cancelou. Não é burocracia, mas história com consequências jurídicas.

Assim, para o bisneto de Antonio Pieri Junior, o processo que começa agora não tem vitória garantida, mas mesmo assim, ele escolheu entrar. Tudo isso por que, como a família aprendeu com o pracinha que um dia pegou um fuzil sem saber se voltaria, não existe vitória sem luta.

A Master Cidadania conduz processos de reconhecimento judicial de cidadania italiana por descendência há mais de 20 anos. Cada caso é analisado individualmente, com clareza sobre possibilidades e riscos reais antes de qualquer compromisso.

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Perguntas frequentes

O que é a Lei Tajani e como ela afeta casos de cidadania italiana para bisnetos?

A Lei Tajani, aprovada em 2025, reformou as regras de transmissão da cidadania italiana e impôs restrições a casos com maior distância geracional. Bisnetos de italianos podem ser impactados dependendo da configuração específica da linha familiar. Por isso, é fundamental uma análise caso a caso e ter uma banca jurídica especializada para a construção da tese.

Ainda é possível buscar cidadania italiana por via judicial mesmo com a Lei Tajani?

Sim. A via judicial contesta a aplicação das restrições legais com base na natureza originária da cidadania italiana por descendência. Não é uma garantia de resultado, mas é uma via legítima e tem sido utilizada com sucesso em casos específicos.

O que é necessário para iniciar um processo judicial de cidadania italiana?

Documentação da linha genealógica completa, como certidões de nascimento, casamento e óbito de todos os antepassados na linha italiana, apostiladas e traduzidas. A Master Cidadania atua em todas essas etapas. A análise do caso pela equipe jurídica define se o processo é viável e qual é a estratégia mais adequada.

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