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Trump revoga vistos: a Europa é o novo plano B para morar fora do Brasil

Publicado em 27/08/2026 às 12:33, por: Helena Ometto
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Autoria: Welliton Girotto (CEO da Master Cidadania)
Publicado em: 27/08/2026

A nova política migratória americana reacende uma pergunta maior do que Donald Trump: ainda escolhemos entre Estados Unidos e Europa usando uma ideia de riqueza construída há trinta anos?

Na última semana de agosto, enquanto Washington anunciava mais uma rodada de restrições migratórias, eu atravessava a Piazza del Duomo a caminho do escritório e fazia uma conta mental: quantos brasileiros me perguntaram, só neste ano, se ainda vale insistir nos Estados Unidos. Perdi a conta em maio.

A notícia que motivava a pergunta desta vez era concreta. Nos últimos dias, o governo americano anunciou a intenção de revogar vistos de estrangeiros que entraram legalmente no país e depois solicitaram asilo. Segundo documentos do Departamento de Estado obtidos pela Associated Press, a medida pode alcançar até 200 mil vistos, na que seria a maior revogação em massa da história do país.

O próprio Departamento informou que já havia cancelado mais de 100 mil vistos apenas em 2025. Somem-se a isso os critérios mais rigorosos adotados desde janeiro de 2025 para categorias de imigração qualificada e o escrutínio ampliado nos consulados, e o quadro que advogados, consultores e candidatos descrevem é o mesmo: entrar legalmente nos Estados Unidos continua sendo possível, mas ficou mais caro, mais seletivo e, sobretudo, mais imprevisível.

Como em quase toda grande mudança política americana, o debate se dividiu em dois campos. De um lado, os que enxergam Donald Trump como fenômeno passageiro; de outro, os que interpretam cada decisão como prova de um fechamento definitivo. Ambos podem estar olhando para a questão errada. Porque este não é, essencialmente, um artigo sobre Donald Trump. É um artigo sobre uma mudança na maneira como brasileiros qualificados, empresários, investidores e famílias podem começar a pensar seus projetos internacionais.

A pergunta já não é apenas “como entrar nos Estados Unidos”. A pergunta talvez seja outra: ainda estamos escolhendo nosso futuro usando um mapa do mundo desenhado nos anos 1990?

O sonho americano continua vivo. Mas mudou de endereço?

Durante décadas, a resposta parecia óbvia. Quem desejava crescer profissionalmente olhava para os Estados Unidos; quem pensava em qualidade de vida sonhava com a Europa. Os Estados Unidos simbolizavam crescimento, empreendedorismo, inovação, ascensão social. A Europa evocava patrimônio, cidades antigas, saúde pública, equilíbrio entre trabalho e vida. Era uma dicotomia confortável e útil.

Mas toda narrativa construída durante décadas corre o risco de sobreviver ao mundo que a criou. O século XXI mudou a economia global, o mercado de trabalho, a distribuição da riqueza e a forma como profissionais constroem carreiras internacionais. E pode estar mudando, também, aquilo que chamamos de sucesso.

O endurecimento americano não começou nesta semana

Seria um erro ler as medidas recentes como episódio isolado. O segundo governo Trump vem ampliando o uso de instrumentos administrativos de controle migratório desde a posse: algumas iniciativas tiveram aplicação imediata, outras foram contestadas judicialmente, outras permanecem em discussão. Isso faz parte do funcionamento institucional americano.

O exemplo mais eloquente é a taxa de 100 mil dólares sobre novas petições do visto de trabalho H-1B: anunciada por proclamação presidencial em setembro de 2025, confirmada por um tribunal federal em dezembro, anulada por outro em junho de 2026 e, até o fechamento deste artigo, suspensa por decisão judicial enquanto aguarda recurso. Em doze meses, a mesma regra existiu, valeu, caiu e segue em disputa.

É aqui que mora o aspecto frequentemente ignorado do debate. Empresas calculam risco. Investidores calculam risco. Famílias também. Mesmo quando uma política pode ser revertida no futuro, ela altera decisões no presente, afinal uma família que pretende mudar de país não trabalha com probabilidades eleitorais; trabalha com planejamento. Quanto maior a percepção de instabilidade, maior o custo emocional, financeiro e jurídico da decisão.

A pesquisadora Majda Ruge, do European Council on Foreign Relations, descreve em suas análises sobre o segundo mandato uma dinâmica em que diferentes grupos do governo disputam espaço apresentando iniciativas de impacto imediato perante a base eleitoral do presidente. A leitura ajuda a entender por que os temas migratórios ganharam protagonismo constante. Mas, mais importante do que discutir a intenção política, é compreender o efeito prático: quando as regras parecem mudar com frequência, a previsibilidade diminui. E previsibilidade, em qualquer decisão patrimonial, possui valor econômico.

O verdadeiro risco talvez não seja Trump

Presidentes passam; instituições permanecem. A frase parece simples, mas concentra o essencial deste debate. Ordens executivas podem ser revogadas e governos mudam. O que permanece são estruturas: procedimentos, capacidade operacional das agências, interpretações consolidadas, tribunais, práticas administrativas, percepções sociais.

Por isso a pergunta relevante para quem pretende construir uma vida internacional não cabe no calendário eleitoral americano. Ela é outra: quais transformações permanecerão depois de janeiro de 2029? Não existe resposta definitiva. Mas existe uma consequência imediata: quando aumenta a incerteza sobre um destino, cresce naturalmente o interesse por alternativas.

E é exatamente nesse ponto que a Europa reaparece.

A Europa não abriu as portas. Ela construiu outra arquitetura.

Convém desfazer um equívoco recorrente no debate brasileiro: a Europa não é um continente sem critérios migratórios.

Portugal endureceu sua legislação (a nova lei da nacionalidade, em vigor desde maio de 2026, elevou de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para a naturalização, e restringiu seu programa de residência por investimento à via de fundos).

A Espanha foi além e encerrou por completo o seu golden visa em abril de 2025. A Itália segue operando cotas e mecanismos de controle para boa parte das autorizações de trabalho.

A Europa não abandonou critérios, mas tem uma arquitetura própria. Enquanto os Estados Unidos organizaram sua imigração qualificada em categorias que viraram vocabulário corrente (EB-1, EB-2, EB-5, L-1, H-1B), a União Europeia desenvolveu outro sistema: o EU Blue Card para profissionais qualificados, os regimes de mobilidade intraempresarial, os programas para pesquisadores, as rotas para empreendedores inovadores, as autorizações para investidores e o reconhecimento das profissões regulamentadas. Cada país organiza essas ferramentas segundo suas regras. O resultado é um sistema menos conhecido do público brasileiro e muito mais amplo do que normalmente se imagina.

E há um dado que o mapa mental antigo não registra: a própria Organização Mundial da Saúde projeta para a região europeia um déficit de cerca de 950 mil profissionais de saúde até 2030. A Europa não está apenas aceitando talento qualificado. Em setores inteiros, está ativamente precisando dele.

O brasileiro conhece os nomes americanos, mas quase não conhece os europeus.

Quando um empresário brasileiro fala em internacionalização, menciona o L-1. Quando um médico pensa em imigração qualificada, conhece o EB-2 NIW. Quando um investidor pensa em residência internacional, lembra do EB-5. Essas siglas entraram no vocabulário nacional.

Na Europa acontece algo curioso: os instrumentos existem, mas seus nomes raramente chegaram ao imaginário brasileiro. O executivo transferido dentro do mesmo grupo empresarial encontra na Europa mecanismos próprios de mobilidade corporativa; o profissional qualificado, os caminhos do Blue Card; os pesquisadores, regimes específicos; os empreendedores, programas dedicados em diversos países. Não são equivalentes perfeitos ao sistema americano, nem precisam ser, mas respondem ao mesmo problema por outra lógica.

Para quem já tem ascendência italiana ou portuguesa, aliás, existe um caminho ainda mais direto que qualquer um desses vistos: a cidadania europeia por descendência, que não depende de oferta de emprego, cota ou renovação periódica. Ela é definitiva, e se estende às próximas gerações da família.

O caso dos médicos revela uma mudança importante

Nenhum exemplo é mais ilustrativo. Nos Estados Unidos, o médico brasileiro que busca residência permanente costuma olhar para categorias como o EB-2 NIW. Na Europa continental, especialmente na Itália e na Espanha, o centro da discussão é outro: o ativo principal deixa de ser o visto e passa a ser o reconhecimento profissional. Primeiro vem o reconhecimento da qualificação; depois, a autorização para exercer a profissão; em seguida, a residência decorrente dessa condição.

Os números mostram que não se trata de teoria. Em 2025, a Espanha homologou 30.303 títulos estrangeiros de Medicina, um recorde histórico, o triplo do ano anterior, segundo os dados apresentados pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades espanhol. Diferentes sistemas jurídicos resolveram o mesmo problema por caminhos distintos. E um deles está processando dezenas de milhares de carreiras por ano.

Estamos comparando salários ou riqueza?

Chegamos ao ponto mais delicado. Durante décadas repetimos uma ideia quase automática: nos Estados Unidos ganha-se mais, na Europa vive-se melhor. A frase continua parcialmente verdadeira, mas depende da pergunta.

Se o critério for exclusivamente o salário nominal, muitas carreiras seguem encontrando remunerações superiores no mercado americano. Mas riqueza nunca foi apenas salário. Ela depende da posição relativa dentro da sociedade, do custo de transformar renda em qualidade de vida, da infraestrutura pública, do tempo disponível, da segurança, do acesso à saúde e à educação, da previsibilidade. Uma renda elevada produz efeitos diferentes em sociedades diferentes, não porque o dinheiro tenha outro valor, mas porque o entorno muda.

O luxo contemporâneo talvez seja outro

O que significa ser rico em 2026? Ganhar o máximo possível ou ganhar o suficiente para viver entre os estratos superiores da renda sem precisar comprar, individualmente, tudo aquilo que torna a vida confortável?

Essa não é apenas uma resposta econômica; é também cultural. George Steiner, em A Ideia de Europa, observava que o continente preservou algo raro: a civilização do café, a cidade desenhada para ser caminhada. O café na praça não é apenas um café: é segurança, espaço público, convivência, tempo disponível. Nenhum desses elementos aparece integralmente no PIB. Todos influenciam a percepção cotidiana de riqueza. Por isso comparar apenas salários produz uma imagem incompleta.

O mapa mental do brasileiro talvez esteja atrasado

O Brasil construiu sua visão de mundo num período específico: os Estados Unidos eram praticamente o único grande polo de atração econômica, a Europa ainda consolidava sua integração, o mercado internacional era menos distribuído. Trinta anos depois, a economia americana continua extraordinariamente dinâmica, mas a Europa tornou-se um espaço muito mais integrado para profissionais qualificados, pesquisadores, empresários e investidores, ao mesmo tempo em que enfrenta escassez demográfica em setores inteiros, da saúde à engenharia e à tecnologia.

Isso não significa que a Europa substituiu os Estados Unidos, nem que um destino seja objetivamente melhor que o outro. Significa que a comparação ficou muito mais complexa e que ignorá-la tem custo.

Talvez a pergunta esteja errada

Durante muito tempo perguntamos “qual país é melhor?”. A pergunta correta provavelmente é outra: qual arquitetura conversa melhor com o meu projeto de vida? Há quem encontre nos Estados Unidos o ambiente ideal para empreender. Há quem encontre na Europa o equilíbrio que procura. E há quem descubra que precisa dos dois, em momentos diferentes da vida. O erro é imaginar que apenas um deles continua representando oportunidade.

Trump abre este artigo, mas não é o protagonista.

Quando Washington endurece políticas migratórias, o impacto imediato aparece nas manchetes. O impacto profundo aparece meses depois, quando milhares de pessoas começam a fazer perguntas que antes sequer consideravam. Não porque deixaram de admirar os Estados Unidos, mas porque passaram a olhar com atenção para alternativas que sempre estiveram disponíveis. A maior consequência política de uma porta que se estreita talvez não seja fechá-la, mas iluminar as outras.

Conclusão

Durante décadas, o brasileiro olhou para os Estados Unidos para enriquecer e para a Europa para viver. Essa divisão ajudou gerações a organizar seus sonhos. Mas o mundo raramente permanece fiel aos mapas que herdamos.

Os Estados Unidos continuam sendo uma das economias mais inovadoras do planeta. A Europa continua impondo desafios burocráticos consideráveis. Nada disso mudou. O que mudou foi a relação entre essas duas promessas. Enquanto Washington discute quem poderá participar do sonho americano, a Europa reorganiza suas formas de atrair talento, conhecimento e capital humano.

O debate é entre duas definições de prosperidade. Porque o luxo do século XXI pode não ser apenas ganhar mais, mas o suficiente para viver com estabilidade, tempo, segurança, acesso à cidade e liberdade para escolher.

E essa é a pergunta mais importante que as notícias sobre Trump nos deixaram. Não para onde devemos ir. Mas se ainda estamos olhando para o mundo com os olhos de ontem.

Qual caminho faz mais sentido?

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Sobre o autor

Welliton Girotto é CEO da Master Cidadania, cidadão italiano e profissional de HR internacional formado pela Confindustria. Há mais de duas décadas acompanha a mobilidade de profissionais, famílias, empresários e investidores entre Brasil e Europa, com atuação em cidadania, reconhecimento profissional e estruturas legais de mobilidade internacional. Escreve sobre carreiras internacionais, geopolítica e as transformações das políticas migratórias europeias.

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