Por que a Europa vai precisar de quase 1 milhão de profissionais de saúde até 2030
A falta de médicos na Europa não é uma projeção especulativa. É a conclusão convergente de três instituições supranacionais com metodologias distintas: OMS, OCDE e Parlamento Europeu. Os dados de 2024 e 2025 eliminaram qualquer ambiguidade que ainda restava sobre a natureza do problema.
Em setembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório que consolidou em um único número aquilo que três instituições vinham sinalizando de formas diferentes: nos próximos cinco anos a Europa não vai conseguir repor os profissionais de saúde que perde. A projeção é de 950 mil postos em falta até 2030 na Região Europeia da OMS, que reúne 53 países.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no relatório anual Health at a Glance: Europe 2024, estima que o déficit na União Europeia já existia em 2022 (algo próximo a 1,2 milhão de médicos, enfermeiros e parteiras). O Parlamento Europeu, em briefing de 2025 preparatório para debate plenário, trabalha com projeção ampliada: 4 milhões de profissionais em falta na Europa até 2030, dos quais 600 mil médicos.
Três metodologias, três recortes geográficos, três janelas temporais. Uma mesma direção.
Por isso, este artigo reúne os dados disponíveis em fontes primárias, explica por que o déficit de médicos na Europa é estrutural e não conjuntural, e mostra por que a Itália, dentro desse quadro, ocupa uma das posições demograficamente mais críticas do continente.
O que a OMS projeta para 2030 sobre a falta de médicos na Europa?
O relatório Health Workforce Migration in the WHO European Region, publicado em 16 de setembro de 2025 pelo Escritório Regional da OMS para a Europa, projeta déficit aproximado de 950 mil profissionais de saúde na Região Europeia até 2030. O escopo geográfico é importante: a Região Europeia da OMS abrange 53 países, incluindo toda a União Europeia, Reino Unido, Suíça, Noruega, Islândia, países dos Bálcãs e Ásia Central.
O relatório identifica dois drivers principais. O primeiro é o envelhecimento da força de trabalho: 13 Estados-Membros da Região Europeia reportam mais de 40% dos seus médicos com idade superior a 55 anos. Isso significa, portanto, que nos próximos 10 a 15 anos, esses países enfrentarão ondas sucessivas de aposentadorias, independentemente de qualquer crise conjuntural ou de qualquer política pública emergencial.
O segundo driver é a migração interna da Região. Profissionais formados em países com salários menores migram para países com salários maiores, tipicamente de Leste para Oeste, de Sul para Norte. Como resultado, isso agrava a escassez nos países de origem e cria dependência nos de destino, sem alterar o quadro agregado.
Nesse contexto, a OMS Europa sinaliza que o recrutamento internacional deixou de ser exceção para se tornar estratégia explícita de política pública em vários países da Região. De fato, em alguns países europeus, mais de 40% dos médicos em exercício já são formados fora do próprio país.
A OCDE já vê a falta de médicos na Europa desde 2022
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico publica a cada dois anos o relatório Health at a Glance: Europe, que consolida dados comparados dos sistemas de saúde europeus. A edição de 2024 é taxativa: a União Europeia já tinha, em 2022, déficit estimado de 1,2 milhão de médicos, enfermeiros e parteiras em relação aos limiares mínimos definidos pela própria organização para a cobertura universal de saúde.
Vinte países da UE reportaram escassez aguda de médicos em 2022 e 2023. Quinze reportaram escassez de enfermeiros. A OCDE identifica dois fenômenos simultâneos que chama de “dupla pressão demográfica”: o envelhecimento da população europeia, que aumenta a demanda por cuidados, e o envelhecimento da força médica, que reduz a oferta disponível.

A OCDE propõe três caminhos de resposta: formar mais profissionais localmente (resposta de impacto lento, pois leva ao menos uma década para surtir efeito), reter os profissionais que já estão no sistema e inovar na entrega de serviços de saúde. No entanto, nenhum desses caminhos, isoladamente, resolve o déficit projetado.
O fluxo de profissionais estrangeiros já é estrutural na Europa Ocidental
O relatório também registra que o fluxo de médicos com formação estrangeira para países europeus cresceu 17% em 2022 em relação a 2019. O movimento de enfermeiros cresceu 72% no mesmo período. Em 2023, mais de 40% dos médicos em exercício na Noruega, Irlanda e Suíça eram formados fora desses países. Na Irlanda, mais de 50% dos enfermeiros. Esses números mostram que a dependência de profissionais formados no exterior já é estrutural em parte significativa da Europa Ocidental e Nórdica.
Por que o Parlamento Europeu trata esse tema como crise estrutural
Em fevereiro de 2025, o Parlamento Europeu realizou debate parlamentar dedicado exclusivamente à crise da força de trabalho em saúde. O briefing preparatório trabalha com projeção mais ampliada: 4,1 milhões de profissionais em falta na Europa até 2030, considerando não apenas médicos e enfermeiros, mas também trabalhadores sociais e auxiliares de cuidado. Dentro desse total: 600 mil médicos, 2,3 milhões de enfermeiros e 1,1 milhão de profissionais do chamado “cuidado social”.
A diferença metodológica em relação à projeção da OMS está no escopo da definição. A OMS trabalha com profissionais de saúde licenciados. O Parlamento Europeu inclui toda a cadeia de cuidado. Os dois números são, portanto, compatíveis, não conflitantes, já que descrevem crises complementares do mesmo fenômeno demográfico.
O diagnóstico do Parlamento Europeu traz um elemento adicional relevante para quem projeta carreira médica no continente: a migração dentro da União Europeia não resolve mais a equação. Além disso, países tradicionalmente exportadores de médicos, como Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, começam a enfrentar suas próprias escassezes.
Nesse sentido, o briefing menciona, explicitamente, que o recrutamento fora da Europa, incluindo de países da América Latina, da Ásia e do Norte da África, tende a se tornar instrumento cada vez mais comum de política pública europeia nos próximos anos.
Onde a Itália se encaixa na falta de médicos na Europa
O mesmo briefing parlamentar de 2025 identifica a Itália como país em posição demograficamente distinta dentro do quadro europeu: ainda tem baixa absorção de profissionais estrangeiros, já que apenas 0,9% dos médicos italianos vinham de universidades estrangeiras em 2021, segundo o Eurostat. Ao mesmo tempo, enfrenta coortes massivas de aposentadoria iminentes. Em outras palavras, a Itália tem margem estrutural para receber profissionais estrangeiros ainda largamente inexplorada e está prestes a precisar dela.

56% dos médicos italianos têm mais de 55 anos, a maior taxa da OCDE
Concretamente, os números italianos específicos corroboram o diagnóstico. Segundo a Anaao Assomed, sindicato nacional dos médicos hospitalares italianos, 56% dos médicos ativos na Itália têm mais de 55 anos, a maior taxa registrada entre os países da OCDE. A idade mediana é de 57 anos. Entre 2021 e 2030, a Anaao projeta 113 mil aposentadorias no sistema sanitário italiano, com pico concentrado em 2026 e 2027. O Ministero della Salute estima aproximadamente 30 mil postos médicos em aberto no Sistema Sanitario Nazionale, número que tende a crescer à medida que as aposentadorias se concretizam.
As vagas ociosas no SSM italiano, especialidade por especialidade
Paralelamente ao problema de reposição dos médicos, o sistema italiano enfrenta dificuldade de formação. O SSM (Concorso Nazionale per l’Accesso alle Scuole di Specializzazione in Medicina) teve, em 2024, 25% das vagas não preenchidas. Foram 15.256 contratos oferecidos pelo Ministério da Universidade e Pesquisa, dos quais apenas 11.392 foram preenchidos.
A escassez é concentrada em especialidades específicas e os dados por área são mais reveladores do que o percentual agregado. Medicina de Emergência e Urgência ficou com 70% das vagas ociosas em 2024. Patologia Clínica, 85%. Microbiologia, 89%. Radioterapia, 82%. Anatomia Patológica, 53%. Há especialidades inteiras em que o sistema italiano perde a capacidade de formar especialistas em ritmo suficiente para repor os aposentados.
A crise é também geograficamente desigual. O Norte da Itália, como Lombardia, Veneto, Emilia-Romagna e Piemonte, concentra a maior demanda por profissionais em estruturas hospitalares de alta complexidade. Já o Sul do país e as ilhas enfrentam escassez dramática em medicina territorial e de base.
Por que essa escassez é estrutural e não conjuntural
Três elementos tornam a falta de médicos na Europa qualitativamente distinta de uma crise temporária.
Primeiro: o tempo de formação médica não permite resposta antes de 2033
Primeiro: o tempo de formação médica. Um médico europeu leva de 6 a 10 anos para se formar e se especializar, dependendo da carreira escolhida. Consequentemente, um aumento imediato e massivo no número de matrículas em faculdades de medicina só produziria efeitos no mercado de trabalho a partir de 2033 ou 2035, já depois do pico projetado da crise. O próprio relatório da Anaao Assomed trata esse descompasso como “duplo funil”: formativo, pelo gargalo na residência, e laboral, pelas aposentadorias mais rápidas do que a reposição. O gargalo temporal é intransponível por política pública.
Segundo: o envelhecimento populacional aumenta a demanda mais rápido do que a oferta
Segundo: o envelhecimento populacional europeu. A demanda por cuidados de saúde cresce mais rápido do que qualquer cenário possível de formação médica doméstica. Segundo a OCDE, a parcela da população europeia com 65 anos ou mais passará de 21% em 2023 para cerca de 30% em 2050. Em outras palavras, uma população que envelhece consome mais cuidados, mais complexos, por mais tempo e com maior especialização. O aumento de demanda está inscrito na pirâmide demográfica e demografia não se corrige com decreto.
Terceiro: a concorrência intra-europeia agrava o saldo líquido continental
Terceiro: a concorrência intra-europeia. Mesmo que um país europeu forme médicos em ritmo acelerado, parte deles migra para países com salários melhores. Alemanha e Reino Unido concentram hoje a maior parte do fluxo de profissionais estrangeiros dentro da Região Europeia da OMS. O saldo líquido, no agregado continental, permanece deficitário e tende a se agravar à medida que os países exportadores também enfrentam suas próprias escassezes.
Somados, esses três elementos (tempo de formação, demografia populacional e mobilidade intra-UE) não são reversíveis em prazo compatível com a janela 2025–2030. Em síntese, o déficit projetado é, portanto, estrutural no sentido técnico do termo: não depende de decisão política pontual, não se resolve com investimento emergencial, não se corrige com ajuste conjuntural.
O que isso muda para profissionais de saúde brasileiros que consideram a Europa como uma opção
A janela regulatória italiana específica existe dentro desse contexto estrutural. Especificamente, dois regimes paralelos estão em vigor. O primeiro é o regime de exercício em derroga, que permite a contratação de médicos com diploma estrangeiro antes da conclusão do reconhecimento formal, vigente até 2029. O segundo é o regime de reconhecimento facilitado do título estrangeiro, estabelecido pela Legge 187/2024 em seu art. 2, comma 8-bis, vigente até 31 de dezembro de 2027, que acelera o procedimento administrativo junto ao Ministero della Salute, órgão competente na Itália para reconhecimento de títulos sanitários estrangeiros.
Essa janela regulatória não é uma brecha isolada. Na verdade, é a resposta italiana a uma crise continental documentada em três relatórios institucionais distintos.
Dois riscos de quem lê a janela italiana fora do contexto estrutural
A distinção importa para quem decide. Um profissional que considera a Itália apenas pela janela regulatória atual corre dois riscos. Pode superestimar a urgência imediata, tratando a decisão como um “aproveite agora ou perca para sempre”. E pode subestimar a sustentabilidade do mercado após 2029, tratando o pós-derroga como território desconhecido. Os dados supranacionais sugerem o oposto em ambas as frentes: as condições regulatórias específicas de hoje vão, de fato, se transformar, mas a demanda estrutural por profissionais estrangeiros deve persistir bem depois de 2030.
Uma ressalva técnica que nenhuma análise responsável pode omitir
O reconhecimento do diploma médico na Itália não implica reconhecimento automático em outros países da União Europeia. A Diretiva 2005/36/CE do Parlamento Europeu e do Conselho estabelece dois regimes paralelos: reconhecimento automático entre países da UE apenas para médicos com diploma emitido em universidade europeia; e sistema geral, caso a caso, para diplomas extracomunitários reconhecidos em um Estado-Membro. O médico brasileiro reconhecido na Itália precisa seguir procedimentos próprios de cada país da UE para exercer em outro Estado-Membro.
Ainda assim, isso não reduz o valor da trajetória italiana. Ao contrário: a experiência italiana constrói histórico profissional europeu, um ativo que altera a posição do profissional em qualquer mobilidade futura dentro do bloco. Mas é ativo que se constrói, não que se herda automaticamente.
O quadro que emerge dos dados
A falta de médicos na Europa nos próximos cinco anos está confirmada, é estrutural e não tem resposta interna disponível em prazo compatível. A migração internacional consolidou-se como instrumento de política pública. A Itália, dentro desse quadro, ocupa posição demograficamente crítica: força médica envelhecida, ondas de aposentadoria iminentes, especialidades inteiras ficando sem especialistas formados em ritmo suficiente.
Para o profissional brasileiro que considera uma trajetória europeia, o diagnóstico significa uma coisa específica: a janela não é um evento. É um cenário. Concretamente, o que muda entre 2027 e 2029 são as condições regulatórias específicas que a Itália está oferecendo hoje. O que não muda é a necessidade estrutural europeia de profissionais de saúde qualificados, que se estende por toda a próxima década e, com alta probabilidade, além dela.
Toda decisão sobre trajetória internacional se constrói melhor sobre dados do que sobre ímpeto. Este artigo, portanto, reuniu os dados disponíveis em fontes primárias. Por isso, a análise caso a caso, que considera formação específica, perfil documental, situação familiar e objetivo de carreira, depende de avaliação técnica individual.
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AUTORIA
Por Welliton Girotto
Fundador e CEO da Master Cidadania
Agente de Comércio Internacional
Perguntas frequentes
O relatório Health Workforce Migration in the WHO European Region, publicado em setembro de 2025, projeta falta de aproximadamente 950 mil profissionais de saúde na Região Europeia da OMS até 2030. Os dois principais fatores são o envelhecimento da força de trabalho médica e a migração interna de profissionais de países com salários menores para países com salários maiores.
O relatório Health at a Glance: Europe 2024 da OCDE estima que a União Europeia já tinha, em 2022, déficit de 1,2 milhão de médicos, enfermeiros e parteiras. Vinte países da UE reportaram escassez aguda de médicos em 2022 e 2023.
Três razões tornam o déficit estrutural: o tempo de formação médica (entre 6 e 10 anos), que impede qualquer resposta doméstica antes do pico da crise; o envelhecimento populacional europeu, que aumenta a demanda por cuidados mais rapidamente do que a oferta cresce; e a concorrência intra-europeia, que drena profissionais dos países exportadores para os de salários mais altos.
O Ministero della Salute estima aproximadamente 30 mil postos médicos em aberto no Sistema Sanitario Nazionale. A Anaao Assomed projeta 113 mil aposentadorias no sistema sanitário italiano entre 2021 e 2030, com pico em 2026 e 2027. Em 2024, 25% das vagas do SSM (Concorso Nazionale per l’Accesso alle Scuole di Specializzazione in Medicina) ficaram ociosas.
Não automaticamente. A Diretiva 2005/36/CE estabelece reconhecimento automático entre países da UE apenas para diplomas emitidos em universidade europeia. O médico brasileiro com diploma reconhecido na Itália precisa seguir procedimentos específicos de cada país para exercer em outro Estado-Membro. A experiência italiana, porém, constrói histórico profissional europeu, ativo relevante para qualquer mobilidade futura dentro do bloco.
O regime de exercício em derroga permite a contratação de médicos com diploma estrangeiro antes da conclusão do reconhecimento formal, vigente até 2029. Já a Legge 187/2024, art. 2, comma 8-bis, vigente até 31 de dezembro de 2027, acelera e simplifica o procedimento de reconhecimento administrativo junto ao Ministero della Salute. Os dois regimes são paralelos e complementares.